Garota do bompreço
Todos os dias, no mesmo horário, não recordo durante quanto tempo, pegávamos a mesma condução. Íamos trabalhar; eu e ela. Ela, com seu uniforme calça jeans azul índigo e uma camisa de malha com a identificação do seu local de trabalho: um hipermercado. Às vezes a camisa era vermelha, outras vezes era preta, mas sempre com a logomarca da empresa. Logo que eu entrava no ônibus olhava em todas as direções, praticamente todos os rostos à procura do seu. Quando a via, silenciosamente eu dizia – ou meu coração dizia pra mim mesmo: “Lá está ela”. Sempre no fundo do coletivo; no último banco. E eu me postava o mais próximo possível do local onde ela estava sentada.
Praticamente nunca nos dirigimos a palavra a não ser uma única vez, da minha parte, quando ao entrar na condução deparei com ela logo nos primeiros bancos e timidamente e quase num sussurro lhe disse: “Bom dia”. Ela, acredito que ficou surpresa com tamanha audácia; olhou-me espantada, mas nada respondeu. Lembro-me que uma vez, meses depois ela também me dirigiu a palavra. Eu estava próximo e segurava em uma das mãos minha agenda e uma sacola com uma marmita, e com a outra mão segurava na barra de ferro que fica presa ao teto do coletivo. Ela então, educada e delicadamente perguntou se eu queria que ela segurasse os objetos que tinha na mão. Entre surpreso e contente, agradeci e lhe entreguei a sacola e a agenda. Foi a primeira e a última vez em que trocamos algumas poucas palavras, embora sempre procurássemos olhar um ao outro disfarçadamente e quando nossos olhares se encontravam, mudávamos a direção do nosso olhar. E assim seguíamos religiosamente todos os dias até que no seu ponto ela descia e ia trabalhar e eu continuava a viagem até o ponto final.
Um dia, no mesmo horário, mesmo ônibus, sem me avisar, sem me dizer nada, sem pedir minha permissão, ela não estava lá quando eu subi. Isso nunca havia acontecido antes. No dia seguinte novamente e nos que se sucederam. Imaginei que estivesse doente, que estivesse de férias logo que o tempo continuou a passar e ela não comparecia aos nossos encontros diários. Depois passei a imaginar que devem ter mudado seu horário de trabalho e finalmente, na pior das hipóteses, que tenha sido demitida do emprego. Infelizmente, não tenho como saber. Não sei seu nome nem seu endereço. Sei apenas que ela é a garota que trabalha(va) no bompreço.
A.Barbosa
Nossa, amigo! faltou aí um pouco de ousadia de ambas as partes, mas mais da sua, pois é o cavalheiro quem toma a iniciativa de se imiscuir na vida da dama. Mas é uma bela história de amor que o tempo não permitiu que você nos contasse toda. Valeu.
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